< Voltar

Como os pets percebem nossas emoções? A ciência explica a conexão entre animais e humanos

Quem convive com um cão ou um gato provavelmente já viveu uma situação parecida: em um momento de tristeza, o pet se aproxima e permanece ao lado do tutor; quando a casa está em clima de festa, ele parece mais animado; diante de uma discussão ou de um ambiente tenso, demonstra inquietação ou procura um lugar mais reservado.

Esses comportamentos não acontecem por acaso. Estudos científicos mostram que os animais de estimação, especialmente os cães, são capazes de perceber diferentes sinais emitidos pelos seres humanos e responder a eles de maneiras distintas. Embora não interpretem emoções exatamente como nós, eles conseguem reconhecer mudanças no nosso comportamento, na expressão facial, na voz e até mesmo no odor corporal.

A relação entre humanos e cães foi construída ao longo de milhares de anos de convivência, durante esse processo de domesticação, esses animais desenvolveram uma grande capacidade de observar e interpretar nossos sinais de comunicação. Hoje, sabe-se que os cães utilizam um conjunto de informações para compreender o ambiente ao seu redor, analisando expressões faciais, postura corporal, direção do olhar, tom de voz e gestos, e combinando essas pistas para adaptar seu comportamento às diferentes situações.

Essa habilidade contribui para fortalecer o vínculo entre tutores e pets e explica, em parte, por que muitos cães parecem antecipar nossas intenções ou reagir rapidamente às mudanças de humor.

 

Eles reconhecem nossas emoções?

Diversas pesquisas indicam que sim.

Um estudo desenvolvido no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo demonstrou que os cães conseguem reconhecer expressões emocionais básicas, como alegria e raiva, tanto em seres humanos quanto em outros cães. Mais do que identificar rostos, eles conseguem associar expressões faciais ao tom emocional correspondente, utilizando diferentes sentidos para interpretar essas informações.

Pesquisas mais recentes também mostram que os cães conseguem prever determinados comportamentos humanos apenas observando a expressão facial de pessoas com quem convivem, demonstrando uma capacidade sofisticada de interpretação social. Isso não significa que eles compreendam sentimentos da mesma forma que os humanos, mas evidencia que reconhecem sinais emocionais importantes e adaptam suas respostas de acordo com o contexto.

 

E não é só pelo olhar: eles também sentem nosso cheiro

Quando pensamos em comunicação entre humanos e cães, normalmente imaginamos o contato visual ou a voz, entretanto, existe outro sentido extremamente importante nesse processo: o olfato.

Talvez essa seja uma das partes mais curiosas dessa conexão.

O olfato dos cães é extremamente desenvolvido e permite identificar alterações químicas que nós simplesmente não conseguimos perceber.

Quando uma pessoa passa por situações de estresse, por exemplo, ocorrem alterações fisiológicas que também modificam os compostos presentes no odor corporal.

Experimentos já demonstraram que o odor associado ao estresse humano pode influenciar o comportamento dos cães, fazendo com que se tornem mais cautelosos em determinadas situações.

Ou seja, mesmo sem ouvir nossa voz ou observar nosso rosto, um cão pode obter informações sobre nosso estado por meio do olfato.

 

E os gatos?

Os gatos também são atentos aos humanos, embora essa relação tenha sido menos estudada do que a interação entre pessoas e cães.

Pesquisas sugerem que eles conseguem distinguir características da voz do tutor, perceber alguns sinais emocionais humanos e modificar seu comportamento de acordo com essas informações.

Isso ajuda a entender por que alguns gatos procuram mais contato em determinados momentos, enquanto outros preferem se afastar quando percebem mudanças no ambiente ou maior tensão.

A forma de responder varia muito entre indivíduos. Nem todo pet vai se aproximar quando percebe algo diferente. Para alguns, afastar-se é justamente a maneira de lidar com aquela situação.

 

Nossas emoções também podem afetar o bem-estar deles?

O ponto mais importante talvez seja este: nossos animais não vivem isolados do ambiente emocional da casa.

Mudanças bruscas na rotina, conflitos frequentes, excesso de estímulos e situações de estresse podem interferir no comportamento e no bem-estar dos pets.

Por isso, além dos cuidados com alimentação e saúde física, vale prestar atenção ao ambiente que oferecemos a eles.

Manter uma rotina relativamente previsível, proporcionar momentos positivos de interação, respeitar os períodos de descanso, oferecer enriquecimento ambiental e observar mudanças persistentes de comportamento são atitudes importantes.

Alterações de apetite, sono, vocalização, interação social ou comportamento não devem ser automaticamente atribuídas ao estado emocional do tutor. Quando são persistentes ou aparecem de forma repentina, é importante procurar orientação do médico-veterinário para investigar possíveis causas clínicas ou comportamentais.

 

Uma conexão construída todos os dias

A ciência ainda tem muito a descobrir sobre a forma como cães e gatos interpretam nossas emoções. Mas uma coisa está cada vez mais clara: eles prestam muito mais atenção em nós do que imaginamos.

Eles observam nossos movimentos, escutam nossa voz, reconhecem mudanças na rotina e, no caso dos cães, podem até captar pelo olfato alterações relacionadas ao nosso estado emocional.

Por isso, quando seu pet parecer perceber que alguma coisa mudou em você, talvez não seja apenas impressão.

Ele pode não saber exatamente o que você está sentindo, mas certamente está prestando atenção.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Ciência comprova que cães compreendem os sentimentos humanos básicos. São Paulo, 13 maio 2024. Disponível em: https://www.ip.usp.br/site/noticia/ciencia-comprova-que-caes-compreendem-os-sentimentos-humanos-basicos/

ALBUQUERQUE, Natalia de Souza et al. Dogs recognize dog and human emotions. Biology Letters, Londres, v. 12, n. 1, 2016. DOI: 10.1098/rsbl.2015.0883. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26763220/

ALBUQUERQUE, Natalia; RESENDE, Briseida Dôgo. Dogs functionally respond to and use emotional information from human expressions. Evolutionary Human Sciences, Cambridge, v. 5, 2023.

CAEIRO, Cátia; GUO, Kun; MILLS, Daniel. Dogs and humans respond to emotionally competent stimuli by producing different facial actions. Scientific Reports, Londres, v. 7, art. 15525, 2017. DOI: 10.1038/s41598-017-15091-4. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-017-15091-4.

Compartilhar

Veja Também